segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Paulo Francis odiava os negros, os nordestinos


A energia de O Trem, a sua potente locomotiva, dirigida pelo seguro maquinista Marcos Caldeira Mendonça, é impressionante, causa-me um espanto agradável, pois recebo no meu e-mail (fernandojorge88@terra.com.br) dezenas de mensagens. E agora, devido ao lançamento da quarta edição da minha catilinária Vida e obra do plagiário Paulo Francis, já quase esgotada, inúmeros leitores de O Trem me perguntam se o Francis foi realmente racista.
Era sim, provei no referido livro, ele odiava os negros, os nordestinos. Negar o seu preconceito é como negar o sadismo, as atrocidades, os crimes do major Carlos Brilhante Ustra (1932-2015), comandante do DOI-CODI paulista, entre os anos de 1970 e 1974, no governo do ditador Médici. Indiscutível, Ustra é o único brasileiro que a nossa Justiça classificou de torturador, da época do regime militar. Sob a direção desse homem sinistro, tão admirado pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), os gorilas fardados do Golpe de 1964 submetiam as suas vítimas a choques elétricos, espancamentos e afogamentos. Segundo os cálculos da Comissão Nacional da Verdade, o centro de torturas do major Ustra, batizado por ele de “Sucursal do Inferno”, causou a morte de quinhentas e duas pessoas.
Enxergo no sadismo de Ustra e no racismo de Francis, dois irmãos gêmeos. Para mim, aliás, sadismo e racismo correspondem a nazismo.
Desafio o Nelson de Sá, organizador de livros contendo os textos medíocres, tediosos, soporíferos e repletos de erros do chatíssimo Paulo Francis, a sustentar: ele não procedia como um empedernido racista.
Prova irrefutável do racismo do Francis é o seu texto na edição do dia 20 de janeiro de 1991, do jornal O Estado de S. Paulo, onde revela que corria risco de vida, “ao deparar com a humanidade baiana das ruas de São Paulo”, isto é, ele via como assassinos, criminosos, todos os naturais do estado natal de Maria Bethânia!
Ainda em 1991, na edição de 10 de novembro do mesmo periódico, apareceu este nojo, este desprezo pelos negros, do desaforado racista: “... gente diferente de nós, que podemos rotular, sem eufemismo, de negrada...” Ora, segundo os bons dicionários da língua portuguesa, negrada é um pejorativo, vocábulo de sentido torpe, indica conjunto de negros, grupo de indivíduos de cor, dados a desordens, a violências...
Nelson de Sá, leia em voz alta, ma-ra-vi-lha-do, as seguintes palavras do Francis, publicadas na edição do dia 8 de dezembro de 1991 de O Estado de S. Paulo:
“Quando vejo um grupo de negros na rua e eles adoram fazer ponto em calçadas, tenho medo. Fico pensando se me agredirem, se corro, se dou um pontapé nos países baixos dos mais próximos. Todo branco pensa as mesmas coisas.”
Parabéns, Nelson de Sá, continue a enaltecer o Francis, teça um hino aos seus sentimentos sublimes, beije extasiado os bestialógicos do racista, coloque-os num tabernáculo, como textos sagrados de um profeta bíblico, e prestes a desmaiar de imensa emoção, chore, derrame lágrimas mimosas, amorosas, bonitinhas...
Os achincalhes do racista com cara de sapo-cururu, não paravam. Ataque a todos filhos de Alagoas: “... persistir no erro é alagoano...” (OESP, 1-10-1992). Outro ataque: “Nordeste, vergonha nacional”. E acrescentou: o nordestino não sabe nada, vive no século XVI (OESP, 8-10-1992).
A merdorreia (jorro de merda) do racista, o ininterrupto fluxo de bosta nos seus textos, capaz de entupir de merda podre trinta penicos, fizeram o Jornal do Commercio, de Recife, e o jornal baiano A Tarde, de Salvador, cancelarem a publicação dos textos do fecalomano (vocábulo criado por mim, pessoa apaixonada pelas suas próprias fezes, que devem ser o mais possível fedorentas e asfixiantes).
Os leitores do jornal dos Mesquitas encontraram, no primeiro semestre de 1995, esta porrada do fecalomano no Vicentinho, cidadão de raça africana e origem humilde, ex-operário, presidente da CUT:
“É preciso meter as mãos na cabeça raspada do Vicentinho língua presa (eu daria uma chicotada, para ver se reage docilmente como escravo)” (OESP-28-5-1995).
O jornalista Cacau Menezes, revoltado, após ler o texto estúpido, sugeriu o enquadramento do fecalomano num processo e o uso imediato da Lei Afonso Arinos, que proíbe a discriminação racial.
Também indignado, o cantor e compositor Gabriel, o Pensador, colocou estas palavras na canção Lavagem cerebral:

“Não seja um imbecil,
Não seja um Paulo Francis,
Não se importe com a origem
Ou a cor do seu semelhante.”

No ano de 1997, eu, Fernando Jorge, fui entrevistado na sucursal do Jornal do Brasil, aqui de São Paulo, por causa do lançamento da primeira edição do meu livro Vida e obra do plagiário Paulo Francis – O mergulho da ignorância no poço da estupidez. E dois repórteres me apresentaram a um pernambucano, o Ferreirinha (Sebastião Ferreira da Silva). Ele me informou que havia sido motorista da Folha de S. Paulo e que o seu chefe o incumbiu de servir o Paulo Francis. Este, ao vê-lo, costumava dizer:
– Você já chegou, meu escravo?
Reação do Ferreirinha:
– Doutor, não sou escravo de ninguém.
Mas o Francis respondia:
– É o meu escravo, sim, porque você é preto, nordestino, pertence a uma raça inferior, que só existe para obedecer a nós, os brancos, de raça superior.
Durante vários dias, no seu apartamento, Francis só o tratou dessa maneira. Transcorridas duas semanas, o chefe do Ferreirinha lhe deu esta ordem:
– Amanhã o Paulo Francis vai voltar para Nova York. Vá lá no seu apartamento, a fim de levá-lo até o aeroporto e pegar as suas malas de lona.
O pernambucano não quis ir, alegando não aguentar mais as humilhações do batráquio racista, porém o chefe insistiu, ele precisava cumprir a ordem.
Esclareceu-me o Ferreirinha, na sucursal do Jornal do Brasil:
– Fui lá e o Paulo Francis, ao me ver, perguntou: você já chegou, meu escravo? Respondi, é melhor o senhor parar com isso, hoje não estou com a cabeça boa, a minha cuca está quente. Aí ele gritou, cala a boca, escravo, senão eu faço você perder o seu emprego!
Indaguei, cheio de muita curiosidade:
– E aí, o que aconteceu?
– Aí, doutor, eu perdi a cabeça. Avancei na direção dele, soltei uma cusparada na sua cara, xinguei o Francis de filho da puta sem parar. Depois, usando a ponta do meu sapato bicudo, arrebentei com pontapés as suas doze malas de lona. Ele gritava, parecia um doido. Antes de ir embora, escarrei mais uma vez na sua cara, bati a porta do seu apartamento com força e ele ficou lá sozinho, a berrar como um bezerro desmamado.
Eu quis saber:
– O senhor perdeu o emprego de motorista da Folha de S. Paulo?
– Não, mas fui transferido para outro setor.
Aconselho o Nelson de Sá, adorador do Paulo Francis, a visitar o nordestino Sebastião Ferreira da Silva, o Ferreirinha, grande vítima do racismo de seu ídolo.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Clodovil, a Bíblia e Santo Agostinho

No programa de televisão do Gugu Liberato, o Ronaldo Ésper sugeriu que o Clodovil Hernández teria sido assassinado. E uma ex-empregada do costureiro, Maria Guimarães, deu apoio ao Ronaldo. Na opinião dela um político de maus bofes contratou um garotão lindo para o matar. A doutora Maria Hebe Pereira de Queiroz, advogada do Clodovil, rapidamente contestou essa história.
Ao ver tal discussão, lembrei-me de um episódio. Em 1993, após a Editora Mercuryo lançar o meu livro Pena de morte: sim ou não? Os crimes hediondos e a pena capital, fui convidado a comparecer no programa do Clodovil, na TV Gazeta, a fim de ser entrevistado por ele.
Antes de entrar no recinto do programa, atravessei enorme salão que havia sido pintado de branco. Saía de suas paredes um fortíssimo cheiro acre de tinta. O cheiro invadiu aquele recinto, já repleto de pessoas, cerca de duzentas, a maioria moças e senhoras meio idosas. Ali o Clodovil estava em maior altura, num estrado, junto de estreita e comprida mesa, onde colocou vistoso aparelho de servir café. Ele mesmo o preparava e o servia a todos entrevistados.
Como o cheiro da tinta se espalhara no recinto, o costureiro, antes do programa ir ao ar, não se conteve e se pôs a berrar:
-Canalhas! Canalhas! Lambedores de bundas! Isto é uma conspiração, um sujo plano dos meus inimigos para me deixar tonto, doente, intoxicado, e assim destruir o meu programa! Seus filhos nojentos de cadelas de rua!
As expressões pesadas se sucediam, jorravam da sua boca de lábios grossos. Tive a impressão de estar ouvindo a ruidosa descarga de uma latrina entupida de cagalhões. Rubro, apoplético, a espumejar, de olhos esbugalhados, que pareciam querer pular das órbitas, ele vociferou:
-Seus bostas, seus piolhos de cafetinas sifilíticas, eu já tenho convite da TV Globo, eu já tenho!
A fúria do Clodovil me chocou, pois a sala se achava cheia de mulheres jovens e senhoras de certa idade, mas para o meu imenso espanto, elas o aplaudiram, bateram palmas...
Sentei-me diante dele. O programa foi ar. Mais calmo, soltou estas palavras:
-Eu aposto, Fernando, que você não sabe quase nada a meu respeito.
Respondi, tranquilo:
-Clodovil, conheço bem a sua vida.
-Não acredito, então conte o que sabe de mim.
-Você, na infância, fazia roupas para bonecas. Aos dezesseis anos vendeu seis modelos de vestidos para o gerente de uma loja e conseguiu, graças à venda, mais dinheiro do que o seu pai ganhava em um mês de trabalho.
-Nossa, é verdade, mas aposto, você não conhece outras coisas da minha vida.
Duas câmeras de televisão avançaram e focalizaram o meu rosto. Afirmei:
-Conheço. Nas décadas de 1960 e de 1970, você brilhou muito, vestiu as mulheres mais elegantes de São Paulo. Tornou-se rival do Dener. O sucesso o levou a ganhar, em 1968, um programa na Rádio Panamericana, porém foi demitido, por criticar as roupas da dona Yolanda Costa e Silva, esposa do general Costa e Silva, presidente da República. Em seguida participa de um programa feminino na TV Globo. Também teve de sair, após brigar com a apresentadora Marilia Gabriela. Outro fato, você chegou a ser ator teatral na peça Seda pura e alfinetadas.
Surpreso, gesticulando, o Clodovil me interrompeu:
-Nossa, como você é perigoso! Continue, estou es-pan-ta-di-ssi-mo!
-Expulso da TV Globo, você foi para a TV Manchete. E lá acabou sendo demitido duas vezes, a primeira em 1986, por chamar a Assembleia Constituinte de Assembleia Prostituinte.
-Ah, meu Deus Fernando, você conhece todos os podres da minha vida! Estou en-ver-gon-ha-di-ssi-mo!
-Você quer que eu pare?
-Não, continue, quero sofrer.
-Vou parar.
-Não, não pare, eu exijo!
-Está bem. Você também foi demitido da CNT.
-E sabe por que, Fernando?
-Sei, é porque você perguntou à Adriane Galisteu, logo depois da morte do Ayrton Senna, se ele funcionava na cama, se não era broxa, impotente. A pergunta gerou protestos, revolta, indignação. Viram na pergunta um desrespeito à memória do piloto recém-falecido.
-Ai, meu Deus, que língua a sua, Fernando!
-Me desculpe, Clodovil, mas sob este aspecto você não tem autoridade para me criticar.
-É, não tenho, mas admita, você é perigoso.
-Admito, porém acho você mais perigoso que a minha pessoa.
Nesse momento ele pegou o meu livro sobre a pena de morte e disse:
-Fernando, aposto que você não sabe que o Santo Agostinho apoiava a pena de morte.
-É claro que sei, Clodovil. Então você não leu o meu livro. Conto este fato no capítulo dois da minha obra. Adoro Santo Agostinho. Gosto até de citar uma frase dele em latim.
Ergui-me da cadeira e citei a frase:
-Apure os ouvidos. Quid est autem diu vivere, nisi diu torqueri? Dou a tradução. “Que outra coisa é uma larga vida, senão um largo tormento?”
Ligeiro, o Clodovil informou:
-Fernando, eu li esta frase na Bíblia, hoje de manhã.
-Desculpe-me, você não leu.
-Ai, Fernando, não me desminta, li hoje de manhã na Bíblia. Já li esta frase mais de cem vezes na Bíblia.
-Não leu.
-Ai, meu Deus, você está me chamando de mentiroso? Repito, eu li esta frase hoje de manhã na Bíblia.
-Garanto, não leu, não pode ter lido.
-Ai, Fernando, além de me chamar de mentiroso, você quer me humilhar? Por que está fazendo isto comigo, por quê? Fiz algum mal a você, fiz? Diga.
Expliquei, pacientemente:
-Clodovil, você não pode ter lido esta frase na Bíblia, pois Santo Agostinho nasceu no ano 354 da nossa era e esse livro sagrado é anterior a ele, surgiu séculos antes de sua vinda ao mundo. É uma questão de lógica. Portanto a frase do autor da famosa obra De civitate Dei (“A cidade de Deus”), não está na Bíblia, nunca esteve, o seu nome não aparece nela.
Batendo na testa, o Clodovil gemeu:
-Ai, que fora que eu dei nesse programa de televisão! Que vergonha, que vergonha! Sinto-me hu-mi-lha-do, a-rra-sa-do!
Fiquei com pena dele, pois todas as pessoas na sala do programa começaram a rir, até os cameramen. E veio à minha memória esta frase de Tomás de Kempis (1380-1471), escritor ascético alemão, inserida no livro A imitação de Cristo (“De imitatione Christi”):
“Muitas vezes rimos, quando devemos chorar” (Saepè vane ridemus, quando merito flere debemus).

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor de Drummond e o elefante Geraldão, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século e cuja quarta edição já está quase esgotada.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

SANTOS DUMONT ERA MUITO MULHERENGO

A pior coisa que pode acontecer na carreira de um jornalista é divulgar inverdades. Como escritor e jornalista sempre tive a preocupação de não mentir, de apontar o erro, doa a quem doer. Nas minhas críticas jamais atingi a honra alheia, pois evito o ataque pessoal, só me baseio em documentos, nos fatos que não podem ser contestados. No meu livro “Vida e obra do plagiário Paulo Francis”, por exemplo, mostrei o racismo e os plágios do Francis. Esta obra, lançada pela Geração Editorial, já está na segunda edição e até o presente momento não apareceu uma pessoa capaz de me dizer:
- Fernando Jorge, você difamou o Paulo Francis!
Apresentar a verdade com provas não é difamar, é ser sincero, honesto.
Pois bem, agora vou desmentir a afirmativa do meu colega Alberto Dines, em cuja terceira edição da sua biografia do escritor Stefan Zweig, publicada pela Editora Rocco, declarou que a biografia de Santos Dumont, escrita pelo americano Paul Hoffman, é “incômoda, porém correta”.
O livro de Hoffman foi lançado em nosso país com o título “Asas da loucura” (“Wings of Madness”, Editora Objetiva, 2004). Trata-se de uma biografia desonesta, pois o autor garantiu, no capítulo 16, que Santos Dumont nunca demonstrou interesse por mulheres. Aliás, Hof­fman tenta provar o seguinte, a todo custo e sem nenhum fundamento: o “Pai da Aviação" era efeminado, um homossexual enrustido.
Sou autor da biografia “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, já na quinta edição, um lançamento da Editora Novo Século. Tal obra me custou oito anos de pesquisas e foi muito bem recebida pela grande imprensa. Não gosto de me gabar, mas graças a esta minha biografia ganhei em 1973 a Medalha Pioneiros da Aeronáutica, concedida pela Fundação Santos Dumont; o Medalhão Comemorativo do Centenário do Nasci­mento de Alberto Santos Dumont, também em 1973, concedido pelo Ministério da Aeronáutica; e neste ano de 2004 a Medalha Mérito Santos Dumont, concedida pelo Ministério da Defesa, por intermédio do tenente-brigadeiro-do-­ar Luiz Carlos da Silva Bueno, comandante da Aeronáutica.
Paul Hoffman garantiu, repito, que o nosso inventor nunca demonstrou interesse pelas mulheres. Mas eu provo na minha biografia: ele amou apaixonadamente uma atriz francesa de certa projeção, com a qual chegou a viver algum tempo. Depoimento de dois amigos seus: do mecânico André Gasteau e do comandante Amadeu Saraiva.
Outra mulher que apaixonou Santos Dumont: a jovem Yolanda Penteado, da alta sociedade paulista. Quando a via, o aeronauta ficava elétrico. Conto isto na página 259 do meu livro. A mãe da jovem resmungava, ao ver o interesse de Dumont pela filha:
-Esse velho, mais velho do que eu, e namorando a minha filha, só porque pensa que voa!
Desejam ver mais uma prova do interesse de Dumont pelas mulheres? Aí vai. Em 1926, ele quis casar-se com a francesinha Jani­ne Voisin, de 17 anos, filha do seu amigo Gabriel Voisin, mas o pai da mocinha não permitiu o enlace, devido a diferença de idade, pois Dumont já passava dos 50 anos.
Dumont também se apaixonou por uma francesa casada, madame Lettelier, “fabulosamente linda” e esposa do diretor do diário parisiense “Le Journal”. Ficou tão apaixonado que quando voava punha em volta do seu pescoço uma fina e delicada meia dessa francesa...
Concluindo, amigo leitor, diga-me se não é desonesta a biografia do americano Paul Hoffman. Como é que ele pôde afirmar que Santos Dumont nunca demonstrou interesse por mulheres? E como o Alberto Dines teve a coragem de chamar essa biografia de correta? Dines, por favor, seja mais cauteloso!

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Fernando Jorge é escritor e jornalista, autor do livro "As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont", já na 5ª edição, um lançamento da Editora Novo Século

domingo, 6 de agosto de 2017

NÃO SE LUTA SÓ PARA VENCER, LUTA-SE TAMBÉM PARA PERDER!

O meu colega Diogo Mainardi, na revista “Veja”, declarou que os paulistas se portaram como “fujões”, durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Esta afirmativa é um absurdo, uma infâmia. Diogo Mainardi insultou todos os soldados constitucionalistas!
São Paulo porfiou bravamente, a epopéia que ele esculpiu, nas páginas da nossa História, é imperecível, é tão soberba como a do grego Leônidas e dos seus trezentos espartanos no desfiladeiro das Termópilas, as “Portas Quentes” onde esses heróis tentaram deter o imenso exército de Xerxes, o opulento e enfatuado soberano persa.
Pode-se afirmar: São Paulo jamais vacilou ou esmoreceu na luta travada contra a Ditadura. Daí o motivo de não aceitarmos este julgamento de Afonso de Carvalho, no seu livro “Capacetes de Aço”:
“Mais tarde, quando a técnica militar fizer o estudo sereno e impar­cial da Revolução Paulista, há de reconhecer, por certo, que o erro principal de São Paulo, com imediato e decisivo fracasso nas operações militares, foi este: esperar. São Paulo ficou todo o tempo esperando por alguma coisa, na antevisão de um messianismo redentor. Espera pelo Rio Grande - e o general Waldomiro Lima atravessa Itararé e parte fundo até Buri. Espera por Minas - e as tropas da 4ª DI tomam Guaxupé, Casa Branca, São José do Rio Pardo e, prestes, batem às portas de Campinas. Espera por um novo golpe pacificador na capital da República. Espera pelo senhor Artur Bernardes. Espera pelo senhor Borges de Medeiros. Espera pelos navios que devem trazer armamento da Europa. Espera pelos aviões, que devem vir da Argentina e do Chile. Espera pelo Anti­-Cristo. Nunca se esperou tanto no Brasil!”
Estas palavras são injustas. O erro fundamental dos paulistas foi o de não terem, logo no início, avançado em direção ao Rio de Janeiro, pois a investida dos rebeldes, na frente Norte, seria decisiva para alcançar a vitória. É verdade que os constitucionalistas aguardavam o apoio de Mi­nas Gerais, de Mato Grosso e do Rio de Janeiro, sem falar das adesões de outros estados. Mas depois que as esperanças se desvaneceram, e isto não tardou a acontecer, São Paulo lutou com ardor e tenacidade. Fez um esforço prodigioso, admirável sob qualquer aspecto: fabricou bombas, morteiros, canhões pesados, granadas de mão, lança-chamas, máscaras contra gases, diversas espécies de armas e munições. Todo o povo se ergueu, num magnífico gesto de desassombro: velhos, jovens, mulheres, crianças, operários, industriais, senhoras da alta sociedade. São Paulo movimentou-se, pelejou. A sua mocidade, ardente e idealista, sacrificou-se em Cunha, Cachoeira, Túnel, Mogi, Eleutério, Lorena, Silveiras, Rio das Al­mas, no Vale do Paraíba, nos ásperos grotões e contrafortes da Manti­queira. São Paulo não esperou, agiu. São Paulo não se conservou imóvel como um faquir, mas viril, másculo, dinâmico, esplêndido, resoluto, à semelhança daqueles guerreiros gauleses que, embora de modo desvantajoso, enfrentaram as invictas e compactas legiões romanas.
Ao São Paulo de 1932, ao São Paulo da Revolução Constitucionalista, aplica-se aquelas palavras que Rui Barbosa proferiu em 1919, quando respondeu às observações de um jornalista de “O Imparcial”:
“Porque não se luta só para vencer, luta-se também para perder. E, às vezes, é mais nobre perder que vencer.”

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O senador José Sarney afirma que as estrelas são vacas!


José Sarney se vale, no seu poema “Maribondos de fogo”, das rimas fáceis e dos recursos primários, com o propósito de impressionar o leitor. O resultado é um desastre, como se vê na página 64:



“Ventos e ventas ardentes

Das minhas tardes videntes”



Puxa, então existem tardes que são videntes? Tardes mães Diná? Quanto elas cobram por uma consulta? Cinqüenta ou cem reais?

Mas o cúmulo do destrambelho, no “poema" Os maribondos de fogo, aparece na página 50 dessa obra teratológica. Vejam, acreditem, na referida página o Sarney compara as estrelas a vacas:



“As estrelas são vacas

que vagam e se perdem

nas enseadas da noite”



Bem, se são vacas, devemos pedir a todos astronautas pa­ra levar imensas quantidades de capim ao espaço. Proponho, transformemos o firmamento num infinito capinzal.

Eu indago, muito curioso: que espécie de capim elas preferem? O capim-bobó? O capim-açu? O capim-gordura? O capim-guiné? O capim­-jaraguá? O capim-membeca? O capim-bambu? O capim-canudinho? O capim-de-angola? O capim-elefante? O capim-limão? O capim-marmelada? O capim-de­-burro? O capim-barba-de-bode?

É de vital importância ficar conhecendo o tipo de capim que as estrelas, ou melhor, as vacas do céu, gostam de devorar. Sim, pois um desses capins, apenas um, pode ajudá-Ias a produzir mais leite. Aliás, leite supersadio, espumante, saboroso, extraído das suas magníficas e adi­posas tetas.

Sou grato ao Sarney, pois eu, afundado na minha infame ignorância, não sabia que as estrelas são quadrúpedes, as fêmeas dos touros. E suplico, entreguem sem demora a ele o Prêmio Nobel. A sua descoberta foi sen-sa-cio-nal, revolucionou a ciência cujo objetivo é revelar a natureza dos astros e analisar as leis que os regem.

Inspirado na asnal (ou genial) descoberta sarneyana, eu produzi estes versos, enquanto olhava, numa noite suavemente romântica, a imensidão toda estrelada, ou melhor, toda avacalhada:



Estrelas, estrelas!

Vocês são vacas,

porém vacas cintilantes

que no céu sem fim,

comem muito capim,

e que brilham mais,

muito mais

do que os fúlgidos diamantes!



Eu e o Sarney,

nunca violamos a lei,

nem somos pessoas velhacas,

por chamá-las de vacas.



Adoramos os seus mugidos

que soam em nossos ouvidos,

como doces melodias,

tocadas pelo Messiasl



Os astrônomos garantem:

o Sol é uma estrela

cuja luz é cor de ouro.

Mentira, mentira,

isto desperta a minha ira!

Eu e o Sarney sabemos

que assim como as estrelas

são vacas,

ele, o Sol,

é um louro e lindo touro gay!

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “O Aleijadinho, sua vida, sua obra, sua época, seu gênio”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora Martins Fontes.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A bestialidade do Doutor Horror

Advogada, ex-procuradora da República e da Fazenda Nacional, padece de aguda cegueira mental a senhora Larissa Sacco, esposa do médico estuprador Abdelmassih. Ela exibe essa cegueira no seu artigo “Quem é Roger Abdelmassih” (Folha de S.Paulo, 2-10-2014). Assegura no texto ilógico que nunca houve qualquer tipo de cerceamento, por parte dele, da sua “liberdade sexual”.
Ora, Roger foi condenado a 278 anos de prisão por 48 crimes sexuais contra 37 mulheres. Aceitemos o argumento de o médico jamais ter abusado sexualmente da futura esposa. Isto o absolve? Roger seria um burro chapado, um legitimo cretino, se estuprasse Larissa, que é advogada, uma conhecedora do Código Penal.
A consorte do Doutor Horror o vê como um inocente, um quase anjo. E indaga: por que as acusadoras de Roger voltaram a procurá-lo? Respondo: elas não sabiam, durante os estupros ficavam dopadas. Exames posteriores comprovaram a violência.
O próprio estuprador admitiu a sua culpa, como é evidente na reportagem “As confissões de Abdelmassih”, feita por Alexandre Hisayasu (VEJA, 15-10-2014). Eis a confissão de Roger, gravada pelo seu psiquiatra:
“Deus quis quebrar o prepotente (ele, Roger)... o comedor!... Que passava mulher pra trás... O grande comedor, que provavelmente achava que tudo tava disponível, a mulher jogava o milho, e eu ia comer, e levei ferro. Você sabe que mulher é um bicho desgraçado mesmo”.
Roger sentia-se igual a um galo no cio. Viu como ele define as mulheres, Larissa? A senhora “é um bicho desgraçado”? Concorda?
No artigo em defesa do estuprador, ela exalta o “caráter reto” do marido, a sua “falta de culpa”. Então, senhora Larissa, leia o depoimento de Vanuzia Leite Lopes, de 54 anos, concedido à repórter Natália Cancian, da Folha de S.Paulo:
“Foi em 1993. Ele sempre me elogiava. Falava que era bonita. Mas nunca pensei que um médico fizesse isso (estupro). Só soube porque o remédio para dormir não fez efeito o tempo todo. Quando acordei, ele estava em cima de mim. Estava com o ânus sangrando e cheia de esperma (ela, Vanuzia). Fiquei chocada. Tentava me desvencilhar, fui empurrando (o Roger). Consegui colocar a roupa e sai chorando, desesperada. De lá fui a uma delegacia e me encaminharam para exames”.
Veja agora, Larissa, as consequências do estupro do seu marido, ainda segundo o depoimento da vítima:
“Depois disso aconteceu um fato terrível. Como ele fez sexo anal e vaginal, e tinha me dado muito hormônio, meu ovário estava hiperestimulado e preparado para multiplicar tudo que recebesse. Ele multiplicou uma bactéria. Dez dias depois, eu já estava quase morta. Tiraram minhas trompas e ovário, que infeccionou. Fiquei quarenta dias no hospital” (Folha de S.Paulo, 16-10-2014).
Larissa tece louvores a Roger, por este ser um pai e um marido perfeitos, uma criatura repleta de amor aos filhos, à família. E daí? Tal sentimento prova a sua inocência? Excelente pai e marido foi também Joseph Fouché (1754-1820), o monstruoso responsável pelos morticínios de Lyon, na época de Napoleão (eu o evoquei no meu livro Água da fonte). Sob o teto do seu lar esse álgido assassino, informa Stefan Zweig, era “o mais amante dos maridos, o mais terno dos pais de família”.
Outro ótimo esposo, idêntico sob este aspecto a Roger, foi o médico inglês Harold Shipman (1946-2004), o Doutor Morte (Doctor Death), pai exemplar de quatro filhos, marido dedicado de Primrose Oxtoby, preso em 1998, após liquidar mais de 297 pacientes, a maioria mulheres, com doses diárias e letais de diamorfina. Harold, o pior serial killer da Inglaterra (Britain’s worst serial killer), enforcou-se na sua cela da penitenciaria de Wakefield.
As palavras do juiz Thayne Forbes, após condená-lo a prisão perpétua, aplicam-se de forma justa a Roger Abdelmassih:
“O senhor abusou da confiança dessas vítimas, pois era o médico delas. Usou suas habilidades médicas de maneira fria, perversa e calculista, sem demonstrar remorso.”
Senhora Larissa, continue a defender o seu encantador marido, tão puro, tão inocente como Joseph Fouché e Harold Shipman...
Os estupros de Roger me trouxeram à memória a novela The strange case of dr Jekill and mr. Hyde, publicada em 1886, mais conhecida pelo título de O médico e o monstro, do escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894). Nessa história, sempre que ingeria uma droga, o médico Henry Jekill se transformava no demoníaco doutor Edward Hyde, num crápula odioso, cruel, repulsivo, de baixos instintos.
Para virar monstro, à semelhança do doutor Jekill, o doutor Abdelmassih não precisava tomar nenhuma droga. Bastava-lhe obedecer as ordens ditadas pela sua voraz e insaciável bestialidade, disposta, em qualquer hora, a devorar indefesas carnes femininas.
Concluindo, reproduzo a seguinte frase do crítico e lexicógrafo britânico Samuel Johnson (1709-1784), autor de ensaios famosos:
“Quem se converte numa besta, liberta-se do esforço de viver como um ser humano”.
(“He who make a beast of himself, gets rid of the pain of being a man”)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Academia cagona que envergonhou o Brasil

A Academia Brasileira de Letras, neste ano de 2017, comemora os 120 anos do seu nascimento e logo sairá a oitava edição do meu livro contra ela. Sim, contra ela, eu o escrevi devido as ânsias de vômito que se apoderavam de mim, quando olhava o pavor, as curvaturas vertebrais, a vil passividade, as diarreias ininterruptas daquele grêmio agachado diante da Censura estúpida e dos bárbaros atos de arbítrio cometidos pelos gorilas do Golpe de 1964.
Informou Ancelmo Gois na edição de 4-3-2017 de O Globo: o holandês Nier Vermeulen cultiva o hábito de colecionar sacos de vômito – como os dos aviões – e já possui 6.016 sacos desse tipo. Ora, se eu pudesse contar quantas vezes senti a vontade de vomitar nos referidos sacos, ao ver as caganeiras da ABL em frente dos milicos, creio que ultrapassaria o número da coleção do singular holandês...
Senti irreprimível nojo da Academia, na época do regime militar, pois ela nunca protestou contra as apreensões dos seguintes livros: Feliz ano novo, de Rubem Fonseca; Abajur Lilás, de Plínio Marcos; Estruturalismo, de Claude Lévi-Strauss; A Universidade necessária, de Darcy Ribeiro; Maria da ponte, de Guilherme Figueiredo; O mundo do Socialismo, de Caio Prado Júnior; Rasga coração, de Oduvaldo Viana Filho; História militar do Brasil, de Nelson Werneck Sodré; Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, etc, etc.
Assustada, a Academia Cagona de Letras se emerdava toda, diante desses atentados fascistas à liberdade de pensamento. Tremia como a terra tremeu em Lisboa, no ano de 1531, e em São Francisco da Califórnia, no ano de 1906.
Cagona total, não emitiu sequer um pio fraquinho de coruja velha, após estes jornalistas serem mortos sob tortura: Luiz Eduardo da Rocha Merlino, em 1971; Carlos Nicolau Danielli, em 1972; David Capistrano da Costa, em 1974; Vladimir Herzog, em 1975. Evoquei-os no meu livro Cale a boca, jornalista!, cuja sexta edição é da editora Novo Século.
A furibunda Censura dos trogloditas fardados, a espumejar como cadela raivosa, proibia dezenas de livros, filmes, peças de teatro, composições de música, notícias de jornais. Sentada no seu lindo cagatório, a ABL ia parindo intermináveis e fedorentas diarreias.
Como procedeu a madame caguenta, quando uma bomba rebentou na sede da Associação Brasileira de Imprensa, no dia 19 de agosto de 1976? Dirigia esse órgão o jornalista Barbosa Lima Sobrinho. A diarreica ABL não fez nenhum protesto, achou melhor ficar toda cubierta de pura mierda, a soltar con frequencia y sin reparo gases intestinales.
Ainda em 1976, nos dias 4 e 22 de setembro, fanáticos da Aliança Anticomunista Brasileira, explodiram duas bombas, respectivamente no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), e na residência do empresário Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo. Reação da Academia: senil, babando, tremebunda, arriou a calça rendada, coberta de grossas crostas de merda, posou as nádegas murchas no seu lindo cagatório e expeliu majestosos cagalhões que dançaram na latrina, agitaram-se em redemoinho, depois de ruidosa descarga.
Ministro da Injustiça, o Armando Falcão, de sobrenome adequado, porque o falcão é ave de rapina, vetou no mesmo ano de 1976 a apresentação em nosso país do balé russo Bolshoi e da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, sob o argumento cretino de que nessa peça havia “amores proibidos, uma relação ilícita entre dois jovens, um assassinato, um suicídio e um pacto de morte.” Entretanto a imbecilidade do ministro sinistro não parou aí. Frenético, hidrófobo, no frenesi de se mostrar como “zeloso protetor da moral das famílias”, ele proibiu também a apresentação, na TV, do Fausto, de Goethe; do Édipo rei, de Sófocles; da Lisistrata, de Aristófanes, peças clássicas, obras primas da literatura universal.
A ABL protestou? Não, apenas tremeu, tremeu, tremeu e encheu, encheu, encheu o seu lindo cagatório com soberbos, maravilhosos, fedegosos cagalhões.
Ligado aos militares da Linha Dura, o Flávio Suplicy de Lacerda, reitor da Universidade Federal do Paraná, mandou arrancar, na biblioteca desta, as páginas por ele consideradas obscenas dos romances de Émile Zola e Eça de Queiroz. Além disso proibiu, na Universidade, a leitura dos livros de Jorge Amado, Graciliano Ramos e Jean-Paul Sartre.
Trêmula, pálida, babosa, horrorosa, exaurida pelas infindáveis cagadas, a Academia dava a impressão de implorar:
-Por favor, agentes da Ditadura, escarrem na minha cara de sem-vergonha, apliquem nela um esplêndido, altissonante, retumbante bofetão!
Alguém poderá dizer: Fernando Jorge, que autoridade moral você tem para criticar o mutismo, a covardia, a alienação da ABL, na época do Golpe de 1964? Tranquilo, respondo: tenho indiscutível autoridade moral, porque naquela época fui processado quatro vezes, como “escritor e jornalista subversivos”, pelo fato de sempre condenar a Censura, os atos de arbítrio, as torturas, os assassinatos de pessoas inocentes. Portanto afirmo, repleto de orgulho: fui o oposto da cagona Academia Brasileira de Letras. Devido ao meu inconformismo, membros da Comissão Nacional da Verdade, com a presença da consultora Maria Luci Buff Migliori (Brasília, fone 61-3313-7317), colheram as minhas declarações durante cinco horas. E os leitores de O Trem me perdoem a falta de modéstia, mas vou aqui transcrever as palavras de Ângelo Henrique Ricchetti, publicadas na seção “Cartas” da revista IMPRENSA, número 169, de março de 2002:
“Eu trabalhava na Assembleia Legislativa (de São Paulo) e lá fui companheiro e amigo de Fernando Jorge. Ele era um amigo que muito me preocupava, pois estava na lista negra dos militares como um jornalista subversivo, mas não, Fernando não era um jornalista subversivo. Era muito mais. Usava duas armas para combatê-los: a inteligência e a segunda, a sua caneta, ora escrevendo livros e ora escrevendo peças de teatro, diga-se de passagem sempre proibidas.”
Ricchetti observa: o catedrático Fernando Henrique Cardoso, ao ver no Brasil “a coisa ficar preta, enfiou o rabo entre as pernas e se mandou para o Chile, lá passando pouco tempo.” Logo FHC reparou, acrescenta o autor da carta, que os contrários a Pinochet eram “simplesmente fuzilados” e decidiu ir para a França, “com o rabo mais enfiado entre as pernas.” Assim Ângelo Henrique Ricchetti conclui a carta:
“Pois bem, o outro Fernando, aquele que me sinto honrado de em tê-lo como amigo, aqui estava, usando duas armas para enfrentar a turma de militares e policiais. Um dia Fernando Jorge foi intimado e compareceu: durante horas foi interrogado por um coronel. Não sei qual seria o comportamento do seu xará (FHC), aquele que naqueles dias estava na França. Já pensaram nisto?”
Agora eu, Fernando Jorge, pergunto: tenho ou não tenho autoridade moral para esculhambar a Academia Brasileira de Letras e chamá-la de cagona?
Encerro o texto reproduzindo esta expressão da página 51 do Diccionario de expresiones malsonantes del español, de Jaime Martin Martin, publicado no ano de 1974: me cago en la mierda. Adivinhe então, amigo leitor, em qual mierda eu gostaria deixar cair os bonitos excrementos da minha barriga...

Alguém talvez objete que sou muito agressivo, violento. Entretanto, em certas circunstâncias, a violência se torna necessária. Exemplo eloquente: até Jesus, símbolo perfeito do perdão e da bondade, agiu com violência. Conforme está na Bíblia, ao entrar no templo de Deus, invadido pelos mercadores, o Nazareno expulsou-os usando um chicote. E jogou o dinheiro deles no chão, e derrubou os seus bancos. Palavras do Salvador, no decorrer dessa violência: “Não façais, da casa do meu pai, covil de ladrões.” Inspirado em Jesus, eu digo: “Não façais, ò ABL, da vossa sede no Rio de Janeiro, covil de cagões.”

Publicado no Jornal O TREM Itabirado